segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

MADEM-G15 - Um nado morto?


Podia aqui poupar o trabalho ao leitor e resumir o MADEM-G15 numa adaptação frásica: “saíram (aliás, foram expulsos) do PAIGC mas o PAIGC não saiu deles”. 

O MADEM-G15, que só por ter G-15 no nome devia fazer urticária a qualquer eleitor democrático, é um partido político criado por 15 ex-deputados do PAIGC, expulsos por causa de indisciplina partidária. O Braima Camará, que perdeu as eleições internas e que liderou a sublevação dos 15 deputados no parlamento, é o líder saído da primeira convenção desse partido. 

Ao analisar os factos, independentemente de haver ou não um "projecto" (Doka International deu com a boca no trombone) em conluio com o Presidente da República, JOMAV, não é normal que 15 deputados de um partido se unam à oposição para chumbar o programa do governo suportado pelo partido do qual foram eleitos e que estejam prontos para formar uma bancada independente e viabilizar um governo da oposição. Todos os partidos políticos têm um estatuto e há matérias (o Orçamento do Estado é uma delas) que exigem a disciplina de voto. 

Agora, vem o papista dizer-me: “isto é uma democracia, o mandato é do deputado e ele é livre”. Respondo: sim senhor, tudo isso é verdade. Mas também eu pergunto: ele foi eleito sem partido? O partido pelo qual ele foi eleito não tinha um estatuto a que ele foi sujeito para entrar na lista dos candidatos a deputado? Porquê que ele tem que desrespeitar esse estatuto agora? Não seria mais coerente renunciar o mandato e criar um partido com estatuto diferente? Sim? Ah não, isso é uma chatice, perde-se os privilégios, o tempo e dá imenso trabalho! 

São essas incoerências que o Braima Camará e companhia não conseguiram explicar, reclamando o direito à militância no PAIGC até ao último instante. Queriam a carne e o ovo da mesma galinha ao mesmo tempo, enquanto que a lógica nos diz que se deve optar por uma coisa ou outra. Pior disso tudo foi ver o Presidente da República a imiscuir na vida partidária e um outro partido, PRS, a apoiar activamente uma delinquência partidária dessa. Já dizia o ditado que "o tornado é bonito mas lá no quintal dos outros". Com essas atitudes, o PR perdeu a sua equidistância que lhe permitia arbitrar e o PRS revelou ser oportunista e amigo onça da democracia. 

Isso leva-me a concluir que o PAIGC esteve muito bem em expulsá-los porque uma coisa é a divergência das várias sensibilidades partidárias internas, que é saudável para a vitalidade partidária e heterogeneidade das listas; outra coisa é delinquência e indisciplina partidária, inaceitáveis em qualquer parte do mundo. 

É justo que, na impossibilidade de vencer as eleições internas e de conviver democraticamente com o líder eleito, o Braima Camará queira criar o seu partido. É um direito que lhe assiste. O que não é aceitável, e é miserável essa ideia, é achar que tem o direito de criar o "seu PAIGC", plagiando as cores e usurpar os símbolos do PAIGC (ver a imagem em cima). Nada na simbologia do partido criado é original (já agora, eu sei que o caju não é o milho). Isso é uma demonstração de incompetência, que não estão preparados para dirigir o país. Se não se conseguem reflectir nem para criar um partido direito, acham que ainda conseguem uma reflexão profunda sobre a sociedade para dar as respostas adequadas à governação que se pretende? 

Se em mais de vinte anos da democracia, por conveniência e marasmos do PAIGC, não se distinguiu os símbolos nacionais dos desse partido - aí é que os outros partidos políticos e os sectores da sociedade guineense deviam fazer um finca pé -, surge o MADEM-G15 para reforçar essa posição privilegiada que só o PAIGC tem na sociedade. Estão a ver o paradoxo? É só isso que a cabeça dos dirigentes do MADEM-G15 produz? 

Falta um pequeno pormenor ignorado: qualquer, repito, qualquer eleição partidária na Guiné-Bissau o PAIGC, além de favorito, parte em vantagem em relação aos outros partidos. Porquê? Porque o PAIGC, além de libertador e histórico, tem a bandeira, o brasão das armas, as cores, o hino e toda a simbologia do Estado. Por outras palavras, o PAIGC tem o Estado da Guiné-Bissau sequestrado. 

Ao Braima Camará, pode-se ter muito dinheiro e comprar muitas coisas e até muitas consciências ou diplomas mas o conhecimento e o desenvolvimento da capacidade de governação não está à venda. 

Quanto ao Sissoko Embalo, já dizia o outro "não é por morar perto de um hospital e ter muitos amigos médicos que faz de mim um médico". O homem pode ter muitos amigos chefes de estados, viajar de jatos privados deles, se fotografar ao lado deles ou jantar com eles mas nada disso faz dele um estadista ou lhe dá alguma competência para tal. O homem devia estar mais preocupado com as campanhas eleitorais no terreno do que armar-se em "acompanhante de luxo" dos chefes de estados.

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